22 de jul de 2011

Matéria do Estado de Minas

O show não pode parar. Nessa terça-feira, eles se despediram do amigo e assistente de produção Wilson Maciel, de 58 anos, enterrado no Rio de Janeiro (RJ), no fim da manhã. Agora, de volta para casa, em Belo Horizonte, reúnem os cacos para enfrentar a dor e um trecho diferente da mesma estrada – a BR-381 – que causou a morte do companheiro num acidente no domingo. A banda 14 Bis ainda não conseguiu apagar as marcas e os traumas da tragédia, mas busca forças para fazer da próxima apresentação, em São Joaquim de Bicas, na Grande BH, no sábado, uma homenagem ao músico que fez parte dos 30 anos de história do grupo.

Relembrar o acidente e encontrar coragem para traçar planos para o futuro fazem chorar o tecladista, compositor, cantor e cofundador da banda, José Geraldo de Castro Moreira, o Vermelho, de 62. Com uma fratura no pé e vários hematomas nas costas, o músico conta como foi ver a morte de perto. “Acordei com o barulho da derrapagem e já senti a pancada forte na cabeça. Lembro do meu corpo voando dentro do ônibus enquanto ele descia pela ribanceira. Ouvi gritos e gemidos até que tudo parou e só conseguia ver as poltronas, que pareciam flutuar sobre mim. Nessa hora, senti a mão protetora da vida, uma força espiritual que me envolveu”, diz.
Vermelho e os outros três integrantes do 14 Bis – Sérgio Magrão, Cláudio Venturini e Hely Rodrigues – estavam no veículo da banda que caiu num barranco na manhã de domingo, às margens da BR-381, a temida Rodovia da Morte. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o desastre ocorreu no distrito de Roças Novas, em Caeté, na Grande BH, quando o ônibus tentou desviar de uma caminhonete que trafegava na contramão ao forçar uma ultrapassagem perigosa. Na companhia de nove integrantes do grupo (incluindo equipe de apoio) e do motorista, eles seguiam para a capital depois de um show em praça pública, em Manhumirim, na Zona da Mata.

No acidente, sete pessoas ficaram feridas e o assistente de produção Wilson Maciel, conhecido como Teacher, morreu na hora. Considerado o braço direito da banda (também cuidava do escritório do grupo no Rio de Janeiro e era coordenador de vendas), Teacher foi sepultado, nessa terça-feira, no Cemitério São João Batista, no Rio, e deixa um vazio difícil de ser preenchido. “O Teacher tinha um pouco da alma da banda. Carioca típico, ele era bem-humorado e uma pessoa muito querida”, conta Vermelho, ao descrever o amigo que foi percussionista do 14 Bis na década de 1990 e há 30 anos trabalhava na produção musical.


Laços de sangue
Mais que a perda de um companheiro de trabalho, o baixista Francisco Sérgio de Souza Medeiros, o Sérgio Magrão, de 60, chora a morte do tio. “Wilson era irmão da minha mãe e fomos criados juntos, pois temos quase a mesma idade e minha avó morreu cedo. Nós dividíamos o mesmo apartamento no Rio havia 10 anos e nossa ligação era muito forte. Ainda não sei como será viver sem um amigo tão fiel. Foi muito azar ele morrer nesse acidente, pois o ônibus só não desceu mais na ribanceira porque uma árvore imensa o segurou no barranco. Mas o Teacher estava sentado exatamente nesse local que se chocou contra os galhos. A pancada foi muito forte e ele não resistiu”, descreve Magrão.

Em meio às lembranças do barulho da freada, dos vidros se estilhaçando e da queda na ribanceira, o baixista tenta alimentar a memória com as últimas alegrias compartilhadas com o tio e amigo. “Nunca mais vou me esquecer dessa tragédia e do desespero de ver uma pessoa tão querida ali sem vida, ao meu lado. Mas acho que Deus preparou o Teacher para que ele partisse num momento de felicidade. Ele vivia uma paixão linda com uma antiga namorada que ele reencontrou depois de mais de 20 anos, comemorava o sucesso de uma cirurgia de catarata e o bom momento profissional”, consola-se Magrão.

O show não pode parar

Sonhos e planos são o combustível do 14 Bis para superar os traumas do acidente. A gravação de um DVD comemorativo dos 30 anos da banda, turnê por 20 capitais e dezenas de shows agendados até o fim do ano injetam ânimo e esperança no grupo, que tenta se refazer da tragédia. O primeiro desafio será encarar novamente a BR-381, no sábado, para subir ao palco na cidade de São Joaquim de Bicas, na Grande Belo Horizonte.

“A vida continua e os shows não podem parar. Somos uma família de 15 pessoas que está ainda mais unida com essa fatalidade. Ainda não sei de onde sairão as forças para a próxima apresentação, mas vamos ter de conseguir fazer essa homenagem ao Teacher”, diz, emocionado, o baixista Sérgio Magrão. Visivelmente traumatizado, ele diz não querer nem ouvir falar na Rodovia da Morte. “Ainda bem que no sábado vamos pegar a estrada no sentido contrário, para o lado de São Paulo. Tenho certeza de que vai ser difícil entrar novamente num ônibus, mas não podemos deixar de tocar o barco adiante.”

Depois do show de São Joaquim de Bicas, a banda segue para Araras (SP), onde se apresenta no domingo. E no próximo fim de semana, o grupo toca em Grão Mogol, no Norte de Minas. Até o fim do ano, eles vão gravar um dos álbuns mais esperados pelo 14 Bis, que nasceu numa garagem do Bairro Santa Efigênia, na Região Leste de BH, sob a influência dos Beatles. O CD e DVD comemorativos dos 30 anos de história terão a participação especial do músico Flávio Venturini e vão marcar uma trajetória de mais de 2,5 mil apresentações.

“Com essa tragédia, aprendemos a dar mais valor à vida, à música e à nossa missão. A música é algo que nos dá prazer e é um retrato da nossas vivências. Os shows serão uma forma de nos distrairmos nesse momento difícil. A troca de boas energias com o público também será importante para superarmos as marcas do acidente”, declara o tecladista Vermelho.


Fonte:  Jornal Estado de Minas